“A nossa juventude quer ter vez e ter voz. Nós precisamos ocupar os espaços, ser protagonistas, e precisamos que as pessoas que já estão nos movimentos nos acolham e nos insira neles, porque quando a gente entra, a gente ‘bota pra quebrar’, a gente faz dar certo. O espírito revolucionário está no nosso sangue.”

ANTENE-SE – As palavras inspiradoras são da filha de agricultores familiares e agroecológicos, jovem militante do Movimento Pela Soberania Popular na Mineração (MAM), Gisele Ferreira, ditas na última quarta-feira, 25 de novembro, quando o COEP, por meio da Rede dos Saberes, realizou o primeiro diálogo virtual da série Inspire-se, que neste encontro falou sobre o protagonismo das juventudes na pandemia. No evento, as convidadas e os convidados apresentaram iniciativas inspiradoras das quais participam, tendo como fio condutor o protagonismo das juventudes no enfrentamento à pandemia pela doença Covid-19, nos campos da educação, comunicação e juventude do campo.

Gisele Ferreira, que estuda geografia na Universidade Federal de Viçosa (UFV), integra a campanha nacional Periferia Viva onde, no grupo em que participa, adquire alimentos agroecológicos e provenientes da agricultura familiar, por meio de compra, doação direta das/dos agricultoras/res ou doação de pessoas interessadas em colaborar com a campanha, e distribui para famílias em situação de vulnerabilidade nas regiões mineiras Serra do Brigadeiro, Caparaó e Teixeiras/Viçosa. “O processo de montagem e distribuição dos kits com os alimentos, nas três regiões, é feito majoritariamente por jovens, o que mostra que a juventude está preocupada com as pessoas, tentando encontrar formas de ajudá-las”, explica Gisele.

Para ela, “muito mais que uma ação assistencialista, o Periferia Viva mostra que temos um movimento de resistência. Defendemos a terra, a vida, as águas, as pessoas, a agroecologia. Quem alimenta realmente essas famílias é a agricultura familiar. As grandes empresas produzem para fora, para o exterior. Quem alimenta as pessoas somos nós, por isso é tão importante estarmos nessa luta de resistência e de enfrentamento ao modelo atual de mineração que a gente tem”, disse Gisele, quando em sua fala defendeu a população que sente cotidianamente os impactos ocasionados pelas mineradoras instaladas no estado de Minas Gerais.

Assista o encontro na íntegra: Inspire-se. O protagonismo das juventudes na pandemia

Outra iniciativa que transforma realidades a partir da atuação de jovens protagonistas vem da capital pernambucana, Recife. A estudante de comunicação social pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Victória de Carvalho, trouxe ao primeiro encontro do Inspire-se um relato sobre o No Bairro Tem, projeto criado por estudantes e professores da UFPE para conectar, por meio de soluções tecnológicas de fácil acesso e baixo custo, comerciantes de bairro e população local.

Com a tecnologia social funcionando em todo o estado de Pernambuco – site, aplicativo, perfil nas redes sociais – as jovens/os jovens participantes do projeto hoje atuam como voluntárias/voluntários que atendem necessidades pontuais e de fomento à iniciativa, como a aproximação das/dos comerciantes cadastrados com os ambientes tecnológicos – o que desmistifica a internet e incentiva a autonomia dessas pessoas na divulgação de seus pequenos empreendimentos via plataformas online -, e a promoção de ações de comunicação, a exemplo da divulgação do No Bairro Tem em espaços de mídia de maior alcance, como as rádios locais.

“Nós levamos conteúdo para que as pessoas consigam continuar nesse caminho que nós já trilhamos, que é o acesso ao mundo digital. Nós precisamos dos jovens ensinando a essas pessoas, fazendo a imersão desses comerciantes de bairro no mundo digital para eles terem a oportunidade de, além de conectar, fazer a ponte para fidelizar os seus consumidores. Muitos comerciantes perderam suas rendas, acreditavam que não tinham oportunidade no mundo digital. Então, mesmo com a situação de hoje, onde o comércio está novamente aberto, nós procuramos uma forma de ajudar essas pessoas, de fazer essa conectividade”, conta Victória.

Educação e políticas para a juventude

Como na história de Gisele Ferreira, também é do campo a próxima iniciativa de protagonismo jovem. Por ocasião da pandemia, o produtor cultural, jovem multiplicador da agroecologia e professor de química, Dyovany Otaviano, voltou a morar na propriedade onde vive sua família, na comunidade rural Riacho da Pedra, em Cumaru, município do Semiárido pernambucano. É de lá que ele leciona à distância para os alunos da Escola Cidadã Integral Técnica (ECIT) Pastor João Pereira Gomes Filho, localizada em João Pessoa, na Paraíba.

Dyovany conta que a escola procurou se adaptar para garantir a oferta dos conteúdos escolares com um olhar cuidadoso para as especificidades das alunas/dos alunos e buscou não interromper o fluxo de aprendizagem mesmo para aquelas/aqueles impossibilitados de acessar os conteúdos via ensino remoto.

“Nossa escola vem realizando um trabalho que reconhece o aluno como principal, como protagonista. Quando a pandemia deixou escancaradas as desigualdades que existem entre os alunos que tem condição ou não de acessar uma aula remota, nós, mesmo na dificuldade, fomos enxergando soluções. A partir dessa realidade fizemos o mapeamento de quais alunos tinham acesso à internet e equipamentos que permitissem assistir as aulas. Também mapeamos os alunos que não acessam estes mecanismos, para que pudessem receber as atividades impressas, que foram entregues a seus responsáveis. E, ainda, aqueles alunos que não tínhamos a possibilidade de manter nenhum tipo de contato, passaram a ser avaliados a partir de portfólios”, explica o professor.

Para o também educador e coordenador de Políticas para a Juventude em Processos Educacionais da Secretaria de Educação do Estado da Bahia, Jocivaldo dos Anjos, além de oferecer mecanismos específicos, capazes de viabilizar o acesso das juventudes ao ensino, também é fundamental abrir canais efetivos de escuta e de diálogo com as juventudes, em especial, a partir da percepção dos mais diferentes desafios a este segmento, decorrentes da pandemia pela Covid-19. Nesse sentido, Jocivaldo relata um importante passo que foi dado no âmbito da Secretaria de Educação estadual, ao longo deste ano, por meio da abertura de canais de diálogo, via redes sociodigitais, que possibilitaram momentos de escuta com cerca de 20 mil jovens na Bahia.

“É necessário que a gente escute o que a juventude tem a dizer. A juventude é um segmento social que ficou por muito tempo sem ser escutado, mas que agora passa a ter escuta justamente por ser o setor, do ponto de vista etário, que passa por mais necessidades, seja de acesso às políticas públicas; seja de vulnerabilidade no campo do trabalho, porque foi o que mais perdeu o emprego; seja no campo da educação, pois foi quem teve que ficar mais em casa; ou seja no campo de violências, pois foi quem mais sofreu as violências tanto simbólicas quanto letais, reais”, conta o coordenador.

Jocivaldo explica que, a partir de uma série de rodas de debate e processos de escuta às juventudes na Bahia, os processos de base dos programas voltados às estudantes/aos estudantes, que são o arcabouço comum a todas e todos, estão sendo adaptados para promover maior equidade por meio da atenção às especificidades locais. Para ele, é fundamental compreender a amplitude desses espaços em que as juventudes atuam. “A juventude não é algo monolítico. São pessoas que possuem um conjunto plural de atividades, que precisam ser consideradas desta maneira. Como vamos lidar com as desigualdades? Não podemos ter políticas públicas homogêneas e acreditar que vamos conseguir alcançar a igualdade. As diferenças geram as desigualdades. E essas desigualdades, nós, como gestores de políticas públicas, temos que ter a coragem de tratá-las na medida em que elas se apresentam à sociedade”, reflete o coordenador.

Inspire-se

Com mediação da jornalista Sílvia Sousa, o encontro virtual “Inspire-se: o protagonismo das juventudes na pandemia” teve o objetivo de anunciar a abertura ao público da Rede dos Saberes, um espaço de diálogo e troca de conhecimento popular, científico e acadêmico, que em sua etapa piloto contou com a colaboração de jovens lideranças comunitárias, integrantes dos projetos desenvolvidos pelo COEP no Semiárido.

A partir deste primeiro diálogo da série Inspire-se, a Rede dos Saberes inicia, nesta segunda-feira (07 de dezembro), um fórum de discussão que dará sequência ao assunto iniciado no encontro sobre o protagonismo das juventudes em tempos de pandemia.

Se você é um/uma desses jovens inspiradores, se conhece iniciativas protagonizadas por jovens no enfrentamento à pandemia pela doença Covid-19 ou gostaria de compartilhar suas ideias, trocar impressões ou aprofundar as discussões acerca do assunto, acesse aqui mesmo no site da Rede dos Saberes o fórum de discussão, que ficará aberto para postagens e interações até o dia 18 de dezembro.

Se desejar, você também pode ajudar a divulgar o site da Rede dos Saberes, neste endereço www.rededossaberes.org.br.

Desde já, você é muito bem-vinda/bem-vindo.

 

Fonte: Assessoria de comunicação da Rede dos Saberes/COEP